Não gritou.
Não fez ameaças.
Apenas se colocou entre minha sogra e a cama, mantendo distância suficiente para que ninguém pudesse acusá-lo de ter começado outra agressão.
— A senhora não vai tocar na minha filha novamente.
Sílvia riu.
— E quem vai me impedir? Um professor aposentado?
Meu pai olhou para a enfermeira.
— Por favor, chame a segurança.
Quero registrar a agressão e solicitar a preservação das imagens das áreas comuns.
Depois se voltou para mim.
— Elisa, você quer que essas pessoas permaneçam aqui?
Olhei para Otávio.
Ele continuava imóvel.
— Não — respondi.
Sílvia pareceu ofendida.
— Você está expulsando seu próprio marido?
— Estou pedindo que vocês dois saiam.
Meu pai pegou a pasta azul, que ainda estava sobre a cama.
Foi quando encontrou a terceira página.
Ele leu duas vezes.
— Elisa, você assinou alguma coisa hoje à tarde?
— Não.
Eu estava na cirurgia.
Meu pai mostrou o papel.
Tratava-se de um termo preliminar de anuência para a apresentação de um imóvel como garantia bancária.
O imóvel era o Armazém das Figueiras.
Meu armazém.
E a assinatura atribuída a mim tinha sido colocada naquele documento às 16h24, segundo o registro impresso.
Nesse horário, eu estava na sala de cirurgia, sob anestesia.
Otávio tentou pegar a pasta.
— Pai, isso é um assunto administrativo.
Eu explico.
Meu pai afastou o documento.
— Primeiro, você vai explicar à Elisa.
Foi a primeira vez que vi meu marido realmente assustado.
Meu pai telefonou para Dalva Siqueira, a advogada que cuidava dos assuntos patrimoniais da nossa família.
Ela chegou pouco depois, enquanto a equipe de segurança registrava a agressão.
Sílvia tentou usar sua posição como doadora de campanhas beneficentes do hospital para exigir que o registro fosse cancelado.
O supervisor explicou que a agressão a uma paciente seria documentada independentemente de doações ou relações comerciais.
Quando minha mãe confirmou que presenciara o tapa, Sílvia perdeu a expressão de superioridade.
Não pediu desculpas.
Apenas disse que todos estavam exagerando.
Dalva examinou a pasta na presença da minha mãe e de uma enfermeira responsável pela minha recuperação.
— Elisa, existe aqui uma procuração concedendo poderes ao Otávio para utilizar seu imóvel como garantia de um financiamento de oito milhões e setecentos mil reais.
Olhei para ela.
— Oito milhões?
— Oito milhões e setecentos mil.
A operação ainda não foi concluída.
Mas a empresa já apresentou documentos ao banco solicitando análise e liberação de crédito.
Sílvia cruzou os braços.
— Trata-se de uma garantia familiar.
— Um bem particular não se transforma em garantia familiar apenas porque o marido deseja — respondeu Dalva.
Quando me casei, havíamos escolhido formalmente o regime de separação de bens.
A propriedade do armazém permanecia exclusivamente minha.
A autorização era indispensável.
E eu nunca havia autorizado nada.
O Armazém das Figueiras pertencera à minha avó Ester.
Era um complexo de galpões antigos, construído por uma família de imigrantes e adquirido por ela quando a região ainda era predominantemente industrial.
Durante décadas, minha avó alugou partes do espaço para oficinas, depósitos e pequenos fabricantes.
Quando a área começou a se valorizar, muitos investidores tentaram comprar tudo.
Ela sempre recusou.
— Imóveis são mais do que números, Elisa — dizia.
— Alguns lugares guardam a memória de uma cidade.
Quando morreu, deixou o conjunto registrado em