reais.
Eu tinha um celular quebrado e uma carta dobrada dentro da bolsa.
Naquela semana, havia recebido a aprovação para uma bolsa parcial em um programa de engenharia com pesquisa aplicada em materiais e monitoramento industrial.
Meu primeiro impulso foi telefonar para minha mãe e contar a novidade.
Depois daquela noite, guardei o telefone.
Na segunda-feira, fui trabalhar normalmente.
Entreguei os registros técnicos solicitados à área responsável e preservei cópias dos documentos que eu tinha autorização para manter.
Não transformei a denúncia numa guerra pública.
Queria que os equipamentos fossem avaliados corretamente, não que as pessoas sofressem para provar que eu estava certa.
O lote foi substituído.
A empresa pagou custos adicionais e perdeu parte da margem do contrato.
Gustavo me culpou pelo prejuízo.
Minha mãe nunca mais ligou.
A ausência deles doeu mais durante o primeiro ano.
Eu ainda olhava para o celular no meu aniversário.
Ainda imaginava que alguém apareceria na porta quando fiquei doente.
Ainda comprava flores no Dia das Mães antes de lembrar que não tinha para quem entregá-las.
Mas, aos poucos, minha vida começou a ter outros sons.
O apito dos laboratórios da universidade.
O zumbido dos sensores.
As conversas com colegas que não achavam estranho eu chegar às aulas com marcas de graxa nos dedos.
Trabalhei em turnos alternados para pagar a parte da mensalidade que a bolsa não cobria e aprendi a programar sistemas de monitoramento durante noites em que mal conseguia manter os olhos abertos.
Conheci Iara Nascimento num projeto de extensão.
Ela era engenheira eletrônica, tinha um humor seco e uma capacidade extraordinária de transformar ideias complicadas em protótipos funcionais.
Numa madrugada, enquanto testávamos um sensor de vibração, ela perguntou por que eu me interessava tanto por comportas.
— Porque elas só chamam atenção quando já falharam — respondi.
Ela ficou pensativa.
— Então precisamos construir alguma coisa que avise antes.
Aquela conversa deu origem à Sentinela Hídrica.
Começamos numa sala emprestada, com três computadores, duas mesas e um equipamento de medição comprado de segunda mão.
Nosso primeiro sistema combinava sensores de vibração, pressão e deslocamento para identificar alterações progressivas em estruturas hidráulicas.
Os resultados eram verificados por engenheiros, não por uma máquina que fingia saber tudo.
Durante dois anos, quase ninguém quis contratar a empresa.
Alguns gestores diziam que era mais barato esperar a falha e fazer o reparo.
Outros consideravam nossos alertas exagerados.
Iara e eu viajávamos de ônibus, apresentávamos dados e voltávamos sem contratos.
A primeira oportunidade importante surgiu quando uma barragem de pequeno porte apresentou movimentos anormais durante um período de chuva.
Nossa equipe identificou o agravamento de uma falha já conhecida, permitindo que os responsáveis antecipassem intervenções e isolassem uma área de risco.
O episódio não nos transformou em celebridades, mas abriu portas.
Contratamos profissionais experientes, buscamos investimentos e mantivemos uma regra inegociável: nenhum relatório seria alterado para agradar um cliente.
Aos 35 anos, eu era diretora executiva de uma empresa com dezenas de funcionários e contratos de monitoramento em diferentes municípios.
Nunca coloquei meu sobrenome em letras douradas na entrada.
O que aparecia na parede do edifício era apenas o nome Sentinela Hídrica e uma fotografia das equipes trabalhando com moradores durante uma operação preventiva.
Foi naquele prédio que minha família apareceu, oito anos depois do jantar.
Era uma quinta-feira de chuva persistente.
Às três