registros do fornecedor.
Falei com Gustavo naquela mesma semana.
Ele me recebeu na sala que havia pertencido ao nosso pai.
A antiga bancada de madeira tinha sido substituída por uma mesa de vidro.
Na parede, um retrato enorme de Gustavo sorria ao lado de autoridades municipais.
— São peças equivalentes — ele respondeu, sem examinar as fotografias.
— Não são.
Precisamos de testes adicionais antes de instalar qualquer coisa.
Ele suspirou.
— Elisa, você entende de manutenção.
Eu entendo de contratos.
Não transforme uma dúvida técnica num escândalo.
— Uma comporta que não fecha pode inundar um bairro.
Gustavo cruzou os braços.
— É por isso que eu tenho engenheiros contratados.
Não preciso de uma irmã querendo provar que sabe mais do que todo mundo.
Na sexta-feira seguinte, recebi um formulário de inspeção.
Queriam que eu assinasse como testemunha de uma conferência técnica que não havia sido realizada.
Recusei e encaminhei minhas observações ao responsável pelo recebimento dos equipamentos.
A instalação daquele primeiro lote acabou suspensa para verificação, mas Gustavo considerou minha atitude uma traição.
Dois dias depois, chegamos ao Dia das Mães.
Celina havia reservado um salão de restaurante com arranjos de orquídeas brancas, guardanapos de linho e músicos tocando perto das janelas.
Eu saí diretamente do trabalho.
Tomei banho no vestiário, vesti minha melhor calça preta e tentei esconder o cansaço com um pouco de maquiagem.
Minha mãe examinou minhas mãos antes de me cumprimentar.
— Você não conseguiu fazer as unhas?
— Passei a manhã numa manutenção de emergência.
— Sempre existe uma emergência quando se trata de você.
A primeira humilhação veio durante o brinde.
Gustavo comentou que a empresa estava fechando contratos importantes e que todos deveriam apoiar o crescimento da família.
Eu permaneci calada.
Então minha mãe ergueu a taça e olhou diretamente para mim.
— Infelizmente, nem todos os meus filhos aprenderam o significado de lealdade.
A conversa diminuiu de volume.
Gustavo sorriu.
Renata manteve os olhos no prato.
— Nesta mesa só se sentam pessoas que honram o nome Duarte — continuou Celina.
— E Elisa decidiu colocar seu orgulho acima da própria família.
Senti o rosto esquentar.
— Eu me recusei a assinar uma inspeção que não aconteceu.
— Não discuta assuntos de fábrica durante minha celebração.
— Foi Gustavo quem trouxe o assunto.
Minha mãe se virou para o garçom.
— Pode retirar o prato dela, por favor.
Ele hesitou.
Olhou para mim e depois para a mulher que pagava a conta.
— Senhora?
— Minha filha não participará mais deste jantar.
O salão ficou silencioso.
O garçom retirou meu prato com evidente constrangimento.
Renata apertou o guardanapo entre os dedos, mas não disse uma palavra.
Gustavo inclinou a cabeça.
— Talvez agora você tenha tempo de voltar para seus canos.
Levantei devagar.
Não queria dar à minha mãe o espetáculo de me ver desmoronar diante dos convidados.
Peguei a bolsa e caminhei até a porta.
Antes de sair, ouvi a voz dela novamente.
— Seu pai teria vergonha dessa sua teimosia.
Parei por um instante.
Foi a única frase que quase me fez voltar.
Porque meu pai nunca havia considerado perigoso fazer perguntas.
Para ele, o perigo começava quando alguém deixava de fazê-las.
Na calçada, a chuva fina encharcou meus cabelos.
Meu saldo bancário era de quarenta e sete