ou procurações?
— Também não.
Ele pareceu aliviado.
— Então vamos manter isso dessa maneira.
E preciso lhe contar uma coisa.
Abriu uma pasta com algumas anotações.
Rebeca havia procurado seu escritório meses antes, alegando representar interesses de uma viúva com dificuldades para administrar um patrimônio.
Não mencionara meu nome naquela primeira consulta, mas descreveria depois circunstâncias suficientes para que Antônio reconhecesse a situação.
Ele não lhe fornecera aconselhamento específico sobre mim nem assumira sua representação.
A consulta, entretanto, o deixara preocupado.
— Ela perguntou sobre procurações amplas, controle de investimentos e processos envolvendo capacidade civil — disse.
— Não posso concluir que tenha cometido algo ilegal apenas por perguntar.
Mas, considerando o que você trouxe, seria imprudente ignorar o padrão.
Antônio recomendou que preservássemos as mensagens, confirmássemos as proteções dos meus bancos e evitássemos qualquer assinatura sem análise independente.
Também me orientou a limitar temporariamente as visitas de Bia aos meus pais.
Naquele mesmo dia, comuniquei a Marta que minha filha não passaria mais fins de semana desacompanhada na casa dela.
Minha mãe reagiu com fúria.
— Você está usando essa criança para nos punir!
— Estou protegendo Bia de comentários que uma criança nunca deveria ouvir.
Ela desligou.
Meu pai telefonou quinze minutos depois.
— Está tentando separar a família, Helena?
— Estou estabelecendo limites.
— Você vai se arrepender.
Desliguei antes que ele continuasse.
Durante as semanas seguintes, a situação ficou mais clara.
Minha avó procurou Antônio por iniciativa própria e contratou uma auditoria da Vale Norte Logística.
Como detentora de uma participação majoritária, tinha acesso legítimo aos registros societários e financeiros necessários à investigação.
Descobriu que a empresa enfrentava dificuldades muito superiores àquelas que meu pai admitia.
A Vale Norte acumulara dívidas próximas de 910 mil dólares, entre financiamentos, pagamentos atrasados e compromissos assumidos em contratos mal planejados.
Parte do problema vinha de uma expansão comandada por Otávio e Rebeca, que apostaram em rotas novas sem calcular adequadamente os custos.
Meu pai não era apenas um homem ganancioso procurando uma oportunidade.
Era alguém apavorado com a possibilidade de perder a posição social que passara décadas exibindo.
Precisava de capital rapidamente.
E o seguro de Davi parecia uma solução conveniente.
Um dos documentos analisados pela auditoria fazia referência a um projeto de investimento privado cuja garantia dependeria de recursos de uma familiar recém-viúva.
Não havia meu nome na versão contábil, mas havia descrições suficientes para levantar suspeitas.
Antônio explicou tudo pessoalmente.
— Existe uma diferença enorme entre oferecer uma participação legítima em um negócio e pressionar alguém vulnerável para garantir dívidas que não contraiu.
— Eles querem o dinheiro inteiro?
— Ainda não sabemos até onde pretendem ir.
Mas precisamos estar preparados.
Duas semanas antes do Natal, minha irmã enviou uma nova mensagem.
Disse que havia reservado um lugar especial para mim na ceia e queria que começássemos o ano sem ressentimentos.
Minha primeira reação foi recusar.
Então minha avó telefonou.
— Venha, Helena.
Mas venha porque eu estou pedindo, não porque seu pai está exigindo.
— A senhora sabe o que eles estão planejando?
Houve uma pausa.
— Sei mais do que gostaria.
Ela pediu que eu a visitasse na véspera da celebração.
Três dias antes do Natal, meu pai me ligou às seis e quinze da manhã.
— Você vai comparecer à ceia e assinar