Meu Pai Me Expulsou do Natal, Mas Minha Avó Sabia de Tudo

a auditoria societária.

Uma reunião extraordinária foi convocada conforme as regras da Vale Norte.

Os participantes receberam as notificações necessárias, e meu pai teve oportunidade de apresentar sua versão dos fatos.

As inconsistências contábeis e os contratos assumidos sem transparência levaram à aprovação de sua destituição da administração, por voto majoritário, nas condições previstas nos documentos da empresa.

Um gestor independente foi contratado para negociar com os credores, revisar contratos deficitários e tentar preservar a operação e os empregos.

Meu pai continuou responsável pelas obrigações que efetivamente assumira.

A investigação sobre eventuais irregularidades prosseguiu pelos caminhos adequados.

Não houve solução mágica.

Alguns contratos precisaram ser renegociados.

Caminhões foram vendidos.

A empresa reduziu custos.

Funcionários enfrentaram semanas de incerteza.

Minha avó fez questão de explicar que proteger os trabalhadores era mais importante do que preservar o orgulho de Otávio.

Rebeca também precisou enfrentar consequências.

Depois de receber uma notificação formal sobre as acusações falsas, concordou, por meio de um acordo extrajudicial, em publicar uma retratação no mesmo grupo familiar e cessar a divulgação das alegações.

Escreveu que não tinha provas de problemas com apostas, negligência materna ou incapacidade de administrar meu patrimônio.

Não foi uma confissão completa de todas as suas intenções.

Mas foi a primeira vez que vi meu nome associado à verdade naquele grupo.

Minha mãe me procurou duas semanas depois.

Deixou uma mensagem dizendo que sentia falta de Bia e que as coisas tinham saído do controle.

Não respondeu diretamente quando perguntei por que havia dito à minha filha que preferia que Davi estivesse vivo no meu lugar.

Limitou-se a dizer que estava nervosa.

Respondi por escrito.

Expliquei que reconhecia a importância de vínculos familiares, mas que eles dependiam de segurança, respeito e responsabilidade.

Não permitiria novas visitas sem mudanças reais e sem um ambiente em que Bia não fosse submetida a ataques contra a própria mãe.

Marta não gostou da resposta.

Pela primeira vez, isso não modificou minha decisão.

Três meses depois daquele Natal, a vida continuava difícil em alguns aspectos.

Eu ainda sentia falta de Davi quando entrava no supermercado e encontrava seu cereal favorito.

Ainda precisava respirar fundo antes de participar de determinadas atividades escolares em que outras crianças chegavam acompanhadas dos dois pais.

Mas Bia estava mais tranquila.

Voltamos a cozinhar aos domingos.

Ela começou aulas de pintura e escolheu fazer um quadro com a imagem de uma casa azul, cercada de árvores e estrelas.

Quando perguntei quem morava ali, ela respondeu:

— Você, eu e todas as pessoas que são boas para a gente.

— E o papai?

Ela apontou para uma estrela amarela no canto superior.

— O papai pode visitar a gente na lembrança.

Naquela noite, minha avó veio jantar conosco.

Não havia porcelana cara, talheres de prata nem quinze pessoas tentando parecer uma família perfeita.

Havia macarrão, salada, suco de maçã e biscoitos de canela.

Bia colocou três guardanapos sobre a mesa.

Em um deles, desenhou um pequeno astronauta.

Reconheci imediatamente o traço que tentava imitar.

— O papai fazia assim — explicou, mostrando o capacete redondo.

Minha avó observou o desenho e sorriu.

Depois Bia puxou uma cadeira extra.

— Para quem é essa? — perguntei.

Ela ficou pensativa.

— Para quem vier e tratar a gente bem.

Olhei para aquela cadeira vazia.

Durante meses, acreditei que perder minha

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