pelo corredor e Elisa desaparecera.
Dois dias depois, a cena se repetira.
Na terceira vez, eu estava atrasado para uma reunião e disse que conversaria com ela à noite.
O acidente aconteceu antes.
Na recepção, esperei até que Bianca começasse a circular novamente entre os convidados.
Chamei Marcos e murmurei:
— Quando a festa terminar, leve Elisa até a biblioteca.
Sem que Bianca perceba.
Às 21h17, as portas da biblioteca foram fechadas.
Elisa entrou carregando o mesmo envelope.
— Eu devia ter entregado isto antes — disse.
— Entregue agora.
Dentro havia cópias de extratos bancários, registros impressos e fotografias feitas com celular.
A primeira imagem mostrava Bianca entrando no antigo escritório do meu pai às 02h03 da madrugada.
A segunda mostrava Renato atrás dela.
Na mão de Bianca estava uma chave de bronze com uma pequena marca triangular perto do cabo.
Eu conhecia aquela chave.
Ela abrira o armário particular onde meu pai guardava documentos societários importantes.
Desaparecera seis meses antes.
— Como conseguiu isso? — perguntei.
— A câmera do corredor havia parado de funcionar, mas a governanta me pediu para verificar uma infiltração naquela noite.
Eu os vi entrando.
Achei estranho e tirei as fotos.
Ela indicou os extratos.
Havia pagamentos regulares de uma empresa controlada pela família de Bianca para uma consultoria que, segundo Artur verificou posteriormente, pertencia a uma sociedade intermediária ligada a Renato.
O total ultrapassava 380 mil dólares em onze meses.
— Por que guardar isso tanto tempo?
Elisa respirou fundo.
— Porque dona Bianca descobriu que eu tinha visto os dois.
A mãe de Elisa morava em um apartamento alugado de uma administradora pertencente ao tio de Bianca.
Segundo Elisa, Bianca ameaçara expulsá-la se ela contasse alguma coisa.
Foi nesse momento que Marcos entrou.
Ele colocou um tablet sobre a mesa.
— Também encontramos isto.
Era uma gravação da garagem da propriedade.
Na noite anterior ao meu acidente, às 23h46, uma pessoa usando casaco escuro entrou por uma porta lateral e caminhou diretamente até meu carro.
A câmera não mostrava o rosto com nitidez.
Mas mostrava a pessoa se abaixando perto da roda dianteira esquerda durante quase quatro minutos.
Marcos então apresentou uma segunda informação.
A oficina que examinara meu carro havia encontrado uma pequena ruptura na linha hidráulica do freio dianteiro.
Inicialmente, os técnicos consideraram que o dano poderia ter ocorrido durante a queda.
Depois de analisarem fotografias tiradas antes da remoção do veículo, passaram a considerar possível que a ruptura existisse antes do impacto.
— Não estamos acusando ninguém ainda — disse Marcos.
— A polícia precisa investigar.
Mas eu quis que você soubesse antes de qualquer movimento.
Elisa falou quase num sussurro:
— Eu vi Renato saindo da garagem naquela noite.
A biblioteca pareceu menor.
Perguntei se ela tinha certeza.
— Sim.
Eu conhecia Renato havia dezoito anos.
Ele estivera no enterro do meu pai.
Sentara comigo durante a pior crise da empresa.
Fora padrinho do casamento da minha irmã.
Se ele tivesse apenas desviado dinheiro, já seria uma traição enorme.
Mas se houvesse participado de uma tentativa de provocar meu acidente, estávamos diante de algo muito mais grave.
Entregamos tudo às autoridades naquela mesma noite por meio de Artur.
Decidimos não confrontar Bianca ou Renato.
A investigação precisaria seguir sem que eles soubessem quanto possuíamos.
Na manhã seguinte,