escura amarrotada da viagem.
Ao lado dele, uma mulher de quarenta e poucos anos segurava uma pasta azul-marinho.
Sofia ficou imóvel.
Rafael deveria estar a milhares de quilômetros dali.
Mas, assim que desligara a ligação do hospital, ele cancelara a reunião final em Seul, entregara o fechamento ao sócio e pegara o primeiro voo disponível de volta aos Estados Unidos.
Durante uma conexão em Vancouver, telefonara para Elisa Prado, sua advogada e administradora do fundo patrimonial da família.
Havia algo em sua voz que fizera Elisa perguntar:
— Você quer que eu encontre você no aeroporto?
— Quero que venha comigo até minha casa.
Agora, os dois estavam ali.
Rafael atravessou o corredor sem olhar para mais ninguém.
Quando chegou perto de Sofia, viu a cor dela, a pulseira hospitalar e a mancha avermelhada começando a surgir ao lado do moletom.
— Você está sangrando.
— É só o curativo.
— Não, não é.
Ele se virou para a mãe.
— O que aconteceu aqui?
Lídia tentou recuperar a postura.
— Sua esposa chegou gritando, desrespeitando todo mundo.
Eu só perdi a paciência.
Bruna apontou para os cacos no chão.
— Ela veio provocar.
Sofia quase riu.
Não havia energia suficiente.
Rafael olhou para a frigideira caída.
— Eu estava atrás dela quando você jogou isso.
Lídia empalideceu.
— Você entendeu errado.
Elisa deu um passo à frente.
— Eu também vi.
Augusto finalmente desligou a televisão.
— Quem é você?
— Elisa Prado.
Advogada de Rafael e administradora do fundo que detém esta propriedade.
Augusto franziu a testa.
— Esta casa é do meu filho.
— Tecnicamente, não — respondeu Elisa.
— A casa pertence ao Fundo Aurora, criado há quatro anos para separar patrimônio empresarial, familiar e residencial.
Rafael é beneficiário e gestor.
Vocês ocupam o imóvel por autorização revogável.
Lídia piscou várias vezes.
— Rafael, mande essa mulher embora.
Ele não respondeu.
Em vez disso, tirou o celular do bolso.
— Antes de pousar, eu acessei as câmeras internas.
Sofia virou o rosto para ele.
Meses antes, depois que pequenas quantias desapareceram de gavetas e um relógio sumiu do escritório, Rafael instalara câmeras discretas em áreas comuns.
Sofia quase esquecera que existiam.
— Que câmeras? — perguntou Bruna.
Rafael abriu um vídeo.
Não mostrou a tela para ninguém de imediato.
Primeiro, olhou para a esposa.
— Posso?
Ela entendeu o que ele perguntava.
Sofia assentiu.
Então Rafael apoiou o aparelho sobre a mesa e deu play.
A gravação tinha data e hora.
Mostrava Sofia entrando na cozinha na madrugada de quarta-feira, segurando a lateral do corpo.
Mostrava sua mão procurando apoio na bancada.
Mostrava-a cair.
Depois vinha o que ninguém poderia reinterpretar.
Lídia se aproximava, dizia que Sofia estava exagerando e tocava seu ombro com o pé.
Bruna chegava logo atrás, olhava para o sangue e perguntava se ainda havia leite na geladeira.
Augusto aparecia na porta.
— Ela está respirando — dizia ele.
— Quando acordar, manda limpar isso.
E saía.
Durante onze minutos, Sofia permanecia no chão.
Depois, Dalva entrava pelo portão lateral, largava a bolsa, ajoelhava-se e chamava a emergência.
Na sala, ninguém respirou direito.
Lídia foi até o telefone.
— Desliga.
Rafael não tocou no aparelho.
— Vocês a deixaram ali.
— Nós não sabíamos que era grave.
— Ela estava sangrando.
—