Ela Quase Morreu Sozinha — E Voltou Para Uma Família Sem Máscaras

você está? Cadê minha mãe? Ela está com você?

Sofia sentiu alguma coisa endurecer dentro dela.

Não raiva.

Lucidez.

— Não.

Ninguém está comigo.

Rafael começou a fazer perguntas ao mesmo tempo: qual hospital, qual médico, o que tinha acontecido, se ela estava segura.

Sofia respondeu apenas o necessário.

— Eu sobrevivi.

Depois a gente conversa.

— Sofia, não desliga.

Ela desligou.

Pela primeira vez em anos, não sentiu obrigação de acalmar ninguém.

Na manhã seguinte, recebeu alta.

Chamou um carro e pediu ao motorista que a deixasse na entrada lateral da casa.

Seu plano era simples: pegar documentos, roupas, notebook e sair antes que qualquer discussão começasse.

O plano durou menos de dois minutos.

A casa estava num estado que beirava o absurdo.

Pratos secos sobre a mesa.

Copos no tapete.

Embalagens de comida espalhadas.

Uma panela com arroz queimado permanecia no fogão.

O cheiro de lixo fechado fazia Sofia prender a respiração.

Ela mal havia colocado a bolsa sobre uma cadeira quando Lídia apareceu.

— Finalmente.

Não havia preocupação no rosto da mulher.

Apenas irritação.

— Onde você se meteu?

Sofia apontou para a pulseira no próprio pulso.

— No hospital.

— Dois dias?

— Dois dias.

Bruna ergueu os olhos do sofá, onde comia pizza diretamente da caixa.

— Aposto que foi ficar num spa e agora vem com essa pulseirinha para dramatizar.

Sofia respirou devagar.

— Fiz uma cirurgia.

Tive hemorragia interna.

Quase morri.

Augusto continuou assistindo a um programa esportivo.

Lídia cruzou os braços.

— E nós ficamos sem comida feita.

Foi essa frase que encerrou alguma coisa dentro de Sofia.

Não o casamento.

Não ainda.

Mas a versão dela que passava anos explicando, cedendo, limpando e tentando merecer afeto.

— Façam a própria comida — respondeu.

— Vou subir, arrumar minhas malas e sair.

Lídia levou alguns segundos para entender.

— O quê?

— Eu disse que vou embora.

— Você não vai a lugar nenhum antes de colocar essa casa em ordem.

Sofia deu um passo em direção à escada.

— Não encoste em mim.

A autoridade na voz dela pareceu provocar algo em Lídia.

A mulher virou-se para a ilha da cozinha e agarrou uma frigideira de ferro.

— Você mora sob o teto do meu filho e acha que pode falar comigo assim?

— Este teto não dá a você o direito de me tratar como serva.

Lídia arremessou a frigideira.

Sofia viu apenas um movimento escuro cruzando seu campo de visão.

Instintivamente recuou.

A frigideira passou perto de seu rosto e bateu no armário de vidro atrás dela, destruindo uma prateleira inteira de cristal.

O barulho paralisou a sala.

Bruna foi a primeira a reagir.

Ela riu.

— Para de fazer essa cara.

Nem pegou em você.

Lídia pegou outra panela, menor, mas pesada.

— Vai para a cozinha.

Agora.

Sofia sentiu o coração acelerar.

Não podia correr.

Mal podia ficar em pé.

Ainda assim, não recuou.

— Jogue outra coisa e eu chamo a polícia.

Bruna soltou uma gargalhada.

— Quem vai acreditar em você? O Rafael está do outro lado do mundo.

E mesmo se estivesse aqui, ele acreditaria na gente.

A voz veio do corredor lateral.

— Não preciso acreditar.

Eu vi.

Todos se viraram.

Rafael estava parado perto da porta da mudroom, ainda com a camisa

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