finalmente ouvi o primeiro choro da minha filha, tudo o que aconteceu ao redor pareceu ficar distante.
Luna nasceu às quatro e dez da madrugada seguinte.
Quando a colocaram nos meus braços, senti uma felicidade tão intensa que chorei sem conseguir falar.
Ela tinha cabelos escuros, mãos minúsculas e uma expressão séria, como se estivesse avaliando o mundo antes de decidir confiar nele.
Prometi em silêncio que faria qualquer coisa para protegê-la.
Não sabia que precisaria cumprir aquela promessa antes do almoço.
Às nove da manhã, Álvaro apareceu no quarto acompanhado de Ricardo.
Meu sogro trouxe uma sacola de presentes e outra pasta.
— Precisamos aproveitar que você já está no hospital — anunciou.
— Existem algumas assinaturas que podem ser resolvidas hoje.
Olhei para os documentos.
Era uma nova versão da procuração.
— Eu já disse que não vou assinar isso.
Álvaro suspirou.
— A empresa precisa desse crédito.
Seu marido vai explicar os detalhes quando você estiver descansada.
— Não preciso de outra explicação.
A resposta continua sendo não.
Ricardo esperou até ficarmos momentaneamente sozinhos.
Aproximou-se da cama e falou baixo.
— Você vai colocar a empresa do meu pai em risco por causa de um pedaço de concreto?
— É o que meus pais me deixaram.
— Agora você tem uma família nova.
— Isso não muda quem é o proprietário.
Foi quando ele perdeu o controle.
Segurou meu pescoço e me pressionou contra o travesseiro por alguns segundos.
A dor, o susto e a dificuldade momentânea para respirar me deixaram paralisada.
Luna estava no berço ao lado da cama.
Ricardo soltou meu pescoço quando ouviu passos no corredor.
— Nunca mais me desafie na frente do meu pai — sussurrou.
Fiquei imóvel até a porta se abrir.
Uma técnica de enfermagem entrou para verificar meus sinais vitais.
Viu as marcas recentes, percebeu meu estado e perguntou, discretamente, se eu precisava de ajuda.
Eu não consegui contar tudo naquele momento, mas pedi para falar com alguém da equipe em particular.
Ela registrou o pedido e avisou a enfermeira responsável.
Pouco depois, consegui informar que não me sentia segura com meu marido no quarto.
A enfermeira Joana chamou a assistente social, que explicou como o hospital poderia me proteger durante a internação e encaminhar o atendimento necessário.
Combinamos que eu poderia solicitar a retirada dos visitantes a qualquer momento.
Ricardo não sabia dessa conversa.
Às dez e vinte, a porta tornou a se abrir.
Meu tio Silas entrou com um buquê de flores brancas e um ursinho de pano para Luna.
Usava uma camisa azul de mangas dobradas, calças simples e seus dois aparelhos auditivos.
Sorriu quando viu a bebê.
Depois olhou para mim.
Seu sorriso desapareceu.
Ele reconheceu imediatamente as marcas dos dedos em meu pescoço.
— Elisa, o que aconteceu?
Ricardo respondeu antes de mim.
— Nada que seja da sua conta.
Minha esposa ficou alterada e eu precisei impor alguns limites.
Álvaro estava perto da janela.
— Discussões acontecem em todo casamento — acrescentou.
Silas colocou o buquê sobre a mesa.
— Ela acabou de dar à luz.
— E daí? — Ricardo cruzou os braços.
— Ser mãe não significa que ela pode mandar em todo mundo.
Meu tio aproximou-se do berço, observou Luna e tocou delicadamente a borda da manta.
— Ela é