Humilhou uma idosa por causa de um colar, mas descobriu tarde demais quem ela era

com cuidado.

Marcelo desviou o olhar.

— Isso não prova a propriedade.

— Não — respondeu Elisa.

— É para isso que servem o contrato, os registros e os documentos que a senhora Sofia trouxe.

Estou contando por que não vou aceitar que vocês tratem essa peça como uma mercadoria qualquer.

Uma jovem apareceu na entrada do salão.

Era Nina, a funcionária do credenciamento.

Ela segurava uma folha de inventário.

— Doutor Artur, desculpe interromper.

Marcelo se virou imediatamente.

— Nina, volte ao trabalho.

Ela permaneceu no lugar.

— Eu procurei o código antigo da peça.

O registro original ainda aparece no arquivo preservado do sistema.

Nina entregou a folha ao presidente.

O código EM-041 identificava Lua de Março como propriedade de Elisa Duarte, recebida em empréstimo para exposição.

Mais abaixo aparecia a referência a uma alteração posterior da categoria patrimonial.

A solicitação de mudança estava ligada à diretoria comercial.

Artur examinou o papel.

— Quem pediu essa alteração?

Nina respirou fundo.

— A ordem chegou com a aprovação do senhor Marcelo.

O diretor bateu a mão na mesa próxima.

— Isso é um procedimento administrativo! Não significa nada!

— Pode significar muita coisa — respondeu Sofia.

— Precisamos dos históricos completos, das aprovações e dos documentos que fundamentaram a mudança.

Artur chamou o responsável pela segurança patrimonial.

— Preserve os registros eletrônicos referentes a esse lote.

Nenhum arquivo deverá ser apagado, alterado ou substituído.

A equipe jurídica assumirá a verificação.

Marcelo tentou se aproximar dele.

— Artur, podemos conversar reservadamente?

— Depois.

Foi então que Sofia apresentou outra informação.

Durante a análise preliminar, sua equipe havia identificado uma referência bancária à joia como garantia de uma operação financeira.

O valor mencionado era de quatro milhões e duzentos mil reais.

— Precisamos confirmar os termos com a instituição financeira — explicou.

— Mas, se a peça foi oferecida como garantia sem autorização da proprietária, estamos diante de uma situação muito mais grave do que uma tentativa de venda irregular.

O telefone de Artur tocou naquele instante.

Era o departamento de conformidade do banco que financiava parte das operações comerciais da Casa Mirante.

Artur afastou-se alguns passos para atender.

Quando retornou, sua expressão havia mudado.

— Marcelo, o banco está solicitando esclarecimentos sobre a garantia vinculada ao colar.

O diretor ficou imóvel.

— Houve uma antecipação de recursos — respondeu, por fim.

— Autorizada por quem?

— Era uma operação necessária para manter o cronograma da empresa.

Artur falou devagar.

— Você está dizendo que usou uma joia emprestada para sustentar uma operação financeira?

— A cessão estava no sistema!

Sofia interveio.

— Uma cessão cuja autenticidade está sendo contestada pela proprietária e que apresenta indícios concretos de irregularidade.

O barulho da chuva parecia mais distante agora.

Elisa observou Marcelo sem demonstrar satisfação.

O homem ainda não havia compreendido o que mais a incomodava.

Ele enxergava apenas o dinheiro em risco.

Ela enxergava o trabalho de uma filha que nunca mais voltaria para casa.

— O senhor sabia que Clara tinha morrido? — perguntou.

Marcelo pareceu confuso.

— Quem?

— A mulher que desenhou o colar.

— Não conheço os detalhes da história de cada objeto do acervo.

Elisa levou alguns segundos antes de responder.

— Esse é o seu problema.

Para o senhor, existem objetos e preços.

Para mim, existiam

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