Patrícia sugeriu uma solução simples: encerrar a ocupação gratuita e oferecer um contrato de aluguel regular.
Se aceitassem, poderiam permanecer.
Se recusassem, teriam um prazo adequado para buscar outro lugar.
Passei semanas hesitando.
Até o Ano-Novo.
Quando vi Sofia chorando porque a própria avó decidira transformá-la em exemplo público, parei de hesitar.
Às 2h14 da madrugada, depois que meus filhos dormiram, mandei uma mensagem para Patrícia.
“Pode entregar pela manhã.
Vamos seguir em frente.”
Ela respondeu apenas:
“Entendido.
Tudo conforme o procedimento que combinamos.”
Às seis da manhã, um profissional contratado para realizar a notificação tocou a campainha da casa.
Aquele envelope não continha uma ordem de despejo imediato.
Continha a comunicação formal de rescisão do comodato e uma proposta de locação pelo valor de mercado.
Meus pais tinham tempo para decidir.
Mas não poderiam mais fingir que possuíam o imóvel.
Às 6h12 meu telefone começou a tocar.
Meu pai ligou quatro vezes.
Minha mãe, três.
Renato mandou uma mensagem:
“Que diabos você fez?”
Enquanto isso, eu fazia panquecas.
Lucas estava na cozinha comigo.
Sofia dormia no sofá enrolada numa manta.
Na quinta ligação do meu pai, atendi.
— Helena! Tem um homem dizendo que temos de sair da nossa casa!
— Leu a notificação inteira?
— Não venha com linguagem de advogado! Essa casa é nossa!
— Não, pai.
Vocês moram nela.
É diferente.
Houve uma pausa.
— Sua mãe está passando mal.
— Se for uma emergência médica, chame atendimento.
Sobre a casa, fale com a Patrícia.
Ouvi passos e, em seguida, minha mãe tomou o telefone.
— Você está fazendo isso por causa de presentes?
— Não.
— Então por quê?
Olhei para meus filhos.
— Porque ontem vocês mostraram o lugar que reservaram para eles na família.
E eu finalmente parei de fingir que não via.
— Você não teria coragem de colocar seus pais na rua.
— A notificação oferece duas opções e um prazo.
Ninguém está sendo retirado hoje.
— Esta casa é minha!
— Leia a escritura.
Ela desligou.
Por alguns minutos, achei que aquele seria o fim da discussão.
Às 8h03, Patrícia ligou.
Sua voz estava séria.
— Seu irmão entrou em contato comigo.
— Renato?
— Ele perguntou o que aconteceria se sua mãe tivesse assinado um contrato de venda três semanas atrás.
Senti meu corpo inteiro ficar alerta.
— Venda de quê?
— Da casa.
— Ela não pode vender algo que não pertence a ela.
— Eu sei.
Mas precisamos descobrir exatamente o que foi assinado.
Patrícia pediu que eu não confrontasse ninguém até obtermos cópias.
Duas horas depois, Renato apareceu no meu apartamento.
Eu não o deixei entrar.
Conversamos no corredor.
Ele parecia muito diferente do homem que rira quando meus filhos foram humilhados.
Estava pálido.
— Preciso falar com você.
— Fale.
— A mamãe estava tentando resolver umas dívidas.
— Vendendo minha casa?
Ele olhou para o chão.
— Ela disse que você acabaria concordando.
— Concordando com o quê?
Renato respirou fundo.
Então contou.
Meu pai devia quase cento e oitenta mil reais depois de garantir um empréstimo comercial para um antigo sócio.
O prazo de pagamento estava vencendo.
Minha mãe, desesperada, procurara um conhecido chamado Marcelo, que trabalhava intermediando investimentos imobiliários.
Ela apresentou a casa como se fosse proprietária e assinou uma promessa particular