ele.
Naquela tarde, recebi uma advertência por atraso.
Marcos me chamou assim que voltei ao depósito.
— Quinze minutos numa residência, Bianca? Você sabe quanto isso prejudica seus indicadores?
— Eu sei.
— Então o que aconteceu?
Pensei em explicar tudo, mas não queria transformar a intimidade de dona Amália numa justificativa profissional.
— Uma cliente idosa precisava de atenção.
Eu deveria ter avisado a central.
Ele soltou um suspiro.
— Não estou dizendo que você precisa ignorar alguém em dificuldade.
Mas temos procedimentos.
Quando houver uma situação de risco, avise imediatamente.
Não podemos deixar entregadores assumirem sozinhos responsabilidades que não conseguem cumprir.
Ele tinha razão em parte.
Eu não poderia abandonar meu trabalho sempre que alguém precisasse conversar.
Mas também não conseguiria voltar a enxergar dona Amália como apenas mais um código de entrega.
Naquela noite, liguei para minha mãe.
— Bianca? Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, assustada.
Sorri tristemente.
Fiquei pensando em como era estranho que uma ligação inesperada pudesse parecer sinal de problema.
— Não aconteceu nada, mãe.
Só queria ouvir sua voz.
Conversamos durante quase uma hora.
Antes de dormir, pensei em dona Amália, sozinha na casa amarela.
Decidi que, no meu próximo dia de folga, voltaria para visitá-la sem uniforme, sem scanner e sem nenhuma encomenda nas mãos.
Mas eu ainda não sabia que não teria tanto tempo para organizar essa visita.
Na manhã seguinte, havia outro pequeno pacote destinado ao número 427.
Reconheci o endereço imediatamente.
Era um envelope leve, provavelmente mais algum objeto de poucos reais.
Cheguei à rua pouco depois das dez.
O céu estava cinzento e um vento frio agitava as folhas dos vasos na varanda.
Estacionei a van e caminhei até a porta.
— Bom dia, dona Amália!
Toquei a campainha.
Nenhuma resposta.
Esperei alguns segundos.
Toquei novamente.
Silêncio.
Estranhei.
Ela quase sempre aparecia assim que ouvia meu veículo estacionar.
Tentei telefonar.
O aparelho tocou dentro da casa, mas ninguém atendeu.
Olhei pela janela lateral.
A cortina estava fechada.
Foi quando lembrei da frase escrita no caderno azul.
Se eu não abrir a porta, por favor, não vá embora.
Senti o coração acelerar.
Chamei mais uma vez.
— Dona Amália! É a Bianca!
Ouvi um barulho abafado vindo do interior da residência.
Não parecia uma resposta.
Parecia alguma coisa sendo arrastada pelo chão.
Deixei o pacote sobre um banco da varanda e corri até a casa vizinha.
Bati no portão com força.
Um homem de aproximadamente sessenta anos apareceu.
— O senhor é o Mauro? Vizinho da dona Amália?
— Sou.
Aconteceu alguma coisa?
— Ela não atende.
Ontem me contou sobre a queda que sofreu.
Acho que pode estar precisando de ajuda.
A expressão dele mudou imediatamente.
— Tenho uma chave de emergência que ela me deixou.
Enquanto Mauro a procurava, liguei para o SAMU, pelo número 192, expliquei a idade de dona Amália, a ausência de resposta e a suspeita de queda.
A atendente me orientou a permanecer no local, observar se havia sinais de consciência e informar qualquer mudança, enquanto encaminhava o atendimento.
Voltamos para a varanda.
Mauro destrancou a porta.
— Amália? Sou eu, Mauro!
Entramos chamando por ela.
A bengala estava caída no corredor.
Alguns passos adiante, encontramos dona Amália deitada no chão, perto da entrada da cozinha.
Um copo quebrado estava ao lado