Humilhou uma idosa por causa de um colar, mas descobriu tarde demais quem ela era

— TIREM ESSA MULHER DAQUI ANTES QUE OS CONVIDADOS COMECEM A CHEGAR!

A ordem de Marcelo Bastos atravessou o saguão do Hotel Harmonia como uma chicotada.

Do lado de fora, a chuva caía com tanta força que as luzes dos automóveis pareciam manchas coloridas sobre o asfalto.

Dentro do hotel, garçons alinhavam taças de cristal, fotógrafos ajustavam seus equipamentos e funcionários conferiam a lista dos convidados de um leilão que prometia movimentar dezenas de milhões de reais.

A mulher que Marcelo queria expulsar tinha 74 anos.

Chamava-se Elisa Duarte.

Seu casaco marrom estava encharcado.

Os sapatos apresentavam marcas de muitos anos de uso.

Na mão direita, ela segurava uma pequena bolsa de couro cuja alça havia sido costurada duas vezes com linha escura.

Diante dela, protegida por um vidro especial, estava uma joia extraordinária.

Era um colar de ouro branco com uma safira azul de vinte e sete quilates, cercada por pequenas pedras que formavam uma espécie de constelação.

A peça recebera o nome de Lua de Março.

Seu valor inicial de avaliação era de sete milhões e oitocentos mil reais.

Mas Elisa não estava interessada no preço.

Seus olhos procuravam um detalhe quase invisível atrás da pedra central.

O fecho.

Havia uma pequena curvatura naquela parte da joia.

Ela se lembrava perfeitamente de como tinha sido feita.

— A senhora precisa se afastar — repetiu o segurança.

— Só mais um minuto, por favor.

Marcelo aproximou-se com passos impacientes.

Tinha 42 anos, um relógio suíço no pulso e a expressão de quem acreditava que o valor das pessoas podia ser calculado pela aparência.

— Qual é o problema aqui?

— Ela está pedindo para examinar o colar, senhor — respondeu o segurança.

Marcelo olhou para Elisa e soltou uma risada curta.

— Minha senhora, isso é uma exposição privada.

Não é um passeio turístico.

— Eu sei.

— Então por que insiste?

— Preciso verificar se o fecho foi alterado.

A resposta provocou outra risada.

— A senhora entende de joalheria agora?

Elisa ergueu o rosto.

— Um pouco mais do que imagina.

Marcelo aproximou-se o suficiente para que ela sentisse o perfume caro misturado ao cheiro de café recém-servido.

— Escute bem.

A peça custa quase oito milhões de reais.

Não temos tempo para fantasias de pessoas que jamais poderiam comprá-la.

Elisa permaneceu calada.

— Vá procurar alguma instituição de caridade — acrescentou ele.

— Aqui é um lugar de negócios.

Um recepcionista desviou o olhar, constrangido.

A jovem responsável pelo credenciamento, Nina, apertou a prancheta contra o peito.

Elisa observou todos aqueles rostos por um instante.

Então abriu a bolsa.

Retirou um celular moderno e digitou uma mensagem.

Marina, pode entrar.

Ele confirmou que vai vender.

Marcelo interpretou o gesto como uma tentativa desesperada de pedir ajuda.

— Pode chamar quem quiser — declarou.

— A senhora não vai entrar.

Ele estava prestes a retornar ao salão quando um carro preto parou diante da entrada.

Três pessoas desceram.

A primeira era uma jovem de cabelos castanhos que carregava uma pasta rígida.

A segunda, uma mulher de aproximadamente cinquenta anos com um porta-documentos preto.

A terceira era Artur Mendonça, presidente do conselho da própria Casa Mirante.

Marcelo reconheceu o homem imediatamente.

— Doutor Artur! Não sabíamos que chegaria por esta entrada.

Mas Artur não respondeu.

Caminhou até Elisa.

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